segunda-feira, janeiro 09, 2006

A Boneca de Papel


Todos os dias brinco, junto à minha casa. Brinco com as flores, com as árvores, com os passarinhos a quem todos os dias dou comida, e ás vezes brinco com os meus amigos, quando a minha mãe não vê.
Os meus amigos são divertidos, sabem muitas coisas e quando estou triste, eles animam-me sempre. Tenho 8 anos e chamo-me Teresa.
O meu pai está a trabalhar muito longe, eu não sei muito bem onde é, mas sei que é longe. Ele ás vezes escreve-nos cartas e telefona, não muito porque também não temos muito dinheiro para fazer chamadas para o “estrangeiro”, como a mãe diz.
Ela e o meu pai nunca me deixaram brincar com os outros meninos da minha rua, porque eles são de outra cor, diferente da minha, mas eu gosto deles e não me importo com isso, até é giro, mas ás vezes não gosto muito de ser diferente, porque as pessoas olham-me na rua e notam que eu tenho outra cor, e há pais desses meus amigos que também não gostam muito que eu tenha outra cor.
Eu acho mal, quando for grande e tiver filhos, não quero que eles pensem assim.Vou-vos contar um segredo, eu tenho um namorado, que é meu amigo, mas ás vezes damos beijinhos na cara e ele dá-me pastilhas de morango, mas ele branquinho e eu não, eu sou “leite com chocolate”, que é como os meus amigos me chamam.
Lá na escola, onde andamos todos, a professora diz que somos todos diferentes, mas todos iguais e que não nos podemos zangar uns com os outros. A escola é o único sítio onde eu estou mais à vontade para estar com os meus amigos, porque a minha mãe não está lá para ver. Eu sei que não devia desobedecer à minha mãe, mas também sei que a opinião dela, sobre isto, não é lá muito correcta. Quando acabam as aulas vou logo a correr para casa, faço os tpc’s, lancho e vou brincar para a rua, quando não está a chover. Eu gosto da chuva, a mãe é que não. Ela diz que posso ficar constipada e assim…mas não me importo muito, eu até já tive varicela!
Depois, quando a minha mãe chega do trabalho dela, eu vou ajudá-la a fazer o jantar e ponho a mesa, dois pratos, dois copos, dois garfos e duas facas, a minha não corta muito bem, a mãe diz que me posso aleijar. Tenho saudades do meu pai, antes punha na mesa mais um prato, um copo, um garfo e uma faca, agora não… eu queria que ele voltasse rápido, mas eu sei que ele só volta quando tiver dinheiro suficiente para podermos viver melhor. Ele prometeu-me que me trazia uma boneca, daquelas do estrangeiro, com muitas roupas e cabelos loiros…daquelas de plástico, que duram muito, mas eu já tenho a Maria, a minha boneca de papel (ela até vai comigo para a escola, dentro da mochila, para ninguém ver. Foi o meu avô António que fez, ele já morreu e também tenho saudades dele!).
Depois do jantar, eu e a minha mãe vamos ver um bocadinho de televisão, eu não vejo muita porque de manhã acordo cedo para ir para a escola e também porque a mãe diz que de noite, na televisão, não dão programas para as crianças. Depois a minha mãe vai-me deitar, tapa-me, dá-me um beijinho e diz sempre “até manhã filha, dorme bem” e pergunto sempre “é amanhã que me vais deixar trazer os meus amigos da escola aqui a casa?” e ela apaga a luz e fecha a porta, como se não tivesse ouvido a pergunta, mas eu sei que ela ouviu e acho que um dia ela vai deixar que eles cá venham e nesse dia, vou fazer o bolo que a Tia Júlia me ensinou e vamos brincar muito, a tarde toda.

2 Comments:

Blogger Liliana said...

Oh amiga, oh amiga... ainda me custa fechar a boca depois de ler esta estória. Epá, como sabes eu nem acreditei que tivesses sido tu a escreve-la. Mas a verdade é que foste. Bolas eu sabia que escrevias bem... mas de onde vem tanta imaginação? Cada vez me surpreendes mais pela positiva, juro-te. Parabéns... e olha, escreve um livro tá? Prometo que compro, e além de mim, aposto que muita gente comprará.
Beijinhos... ainda estou de boca aberta. * * *

21:42  
Blogger Ana said...

que coisa munita! é tão jeitosa esta minha futura filha! vou adoptá-la! =) eu quero um tó gráfo bonito no teu primeiro livro! =) bijuquinhas!

22:39  

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